Uma grande perda no campismo do Brasil, foi a falência da maior fábrica de trailers e motor-homes do país. Fundada em 1965 por Pedro Luiz Scheid, empresário gaúcho, se situava em Novo Hamburgo onde o parque industrial ainda se encontra de pé. Mas, o prazer de vê-la funcionando a todo o vapor foi privilégio dos poucos que visitaram. O campismo no Brasil nunca foi uma prática extraordinária, mas já teve seus melhores dias. Scheid, que hoje é aposentado e mora em São Leopoldo no Rio Grande do Sul, contribuiu muito para estes “melhores dias”. No final do ano 2000, ele concedeu uma entrevista para a Revista da Toca: Uma revista capixaba que merece muito reconhecimento no ramo.
Scheid idealizou a fábrica em 1964 e em 1965 ela foi concretizada. Ainda em 1964, ele construiu o protótipo que foi exposto no salão do automóvel no Ibirapuera e que até hoje se mantém em excelente estado de conservação. Desde 1965 até 1983, Scheid exerceu o cargo de diretor-presidente da Turiscar. Naquele último ano ele vendeu todas as suas ações. Nos momentos de descanso por volta de 1960, Scheid, que trabalhava na Varig, e sua esposa Toni, iam para a praia de Pernambuco no Guarujá. Como naquela época a praia era quase virgem, o casal praticava o camping selvagem e segundo ele era uma delícia. Um ponto negativo dessas viagens era a subida congestionada da Serra. Daí a idéia de construir um trailer onde o casal pudesse ficar acampado à noite e subir nas madrugadas de segunda feira sem trânsito. Na época falava-se na estatização da Varig e isto forçaria a saída de alguns funcionários. O vice-presidente da Varig, o comandante Bordini, sabia das intenções de Scheid e ofereceu sociedade na abertura da fábrica, onde Scheid dirigiria. Após voar para a Alemanha e visitar a fábrica de Knaus e com seus conhecimentos, arregaçou as mangas após voltar ao Brasil e começou a construir seu primeiro trailer. A suspensão tipo Porshe, ele assimilou da Volkswagen. A carroceria “monocoque” era familiar dos tempos de professor de inglês técnico da Varig. Em todos os fins de semana na casa dos pais em novo Hamburgo, Scheid se dedicava inteiramente à construção de seu protótipo. Ele contou com a ajuda de dois marceneiros. Uma corrida contra o relógio se iniciou, pois começara a fabricar seu trailer em outubro e o salão do automóvel seria em fins de novembro. Imprevistos aconteceram. Com o entusiasmo da construção, ninguém percebeu que a porta da fábrica não comportaria a largura do trailer pronto. Não teria como sair sem destruir parte do escritório da firma. Então demoliram o muro dos fundos e saíram pelo terreno da vizinha, após o pagamento da indenização de todos os pés de aipim sacrificados da sua plantação. O caminhão levando o trailer só parou para reabastecimento e junto a dois motoristas, chegou a tempo da abertura do salão. O trailer já chegou com a marca Turiscar e foi um sucesso em termos de visitação, ao contrário das vendas. Em vista disso, Scheid lembrou-se do diálogo que teve com o Sr. Knaus na Alemanha:
Sr. Knaus: -Sr. Scheid, diga-me. Quantos campings existem no Brasil? Scheid: -Nenhum. Sr. Knaus: -E quantas fábricas de barracas existem lá? Scheid: -Não conheço nenhuma. Sr. Knaus: -E o senhor tem coragem de fabricar trailers no Brasil? Que Deus o proteja!!
No primeiro ano, Scheid conseguiu colocar 36 trailers nas revendas Volkswagen, que assumiram a revenda. No segundo ano, só conseguiu vender 18 trailers. Ele “agitou” o mercado organizando ralis para Bariloche, na Argentina, Santiago e Porto Montt, no Chile, Águas quentes, em Goiás, passando por Brasília, onde foi recebido pelo presidente Médici. Na frente do palácio, os 26 trailers alinhados e o presidente Médici os recebendo na rampa principal. Na foto abaixo, seu momento histórico: Pedro Scheid com o presidente Médici e o futuro presidente do país, o General João Figueiredo.
Mais fotos do protótipo:
Um célebre funcionário da Turiscar que ajudou a construir o primeiro trailer e trabalhou por mais de 30 anos na linha de produção foi o seu Oscar. A foto mostra o profissional junto ao primeiro trailer que foi, anos depois, readquirido pela fábrica. O mesmo fora reformado após de três décadas e 60.000km de uso. Em todos os anos de trabalho, Seu Oscar diariamente era o primeiro a chegar e o último a sair do parque industrial. Simplesmente porque amava o seu trabalho e era extremamente competente. A empresa o chamava de: A personificação do espírito da Turiscar, por ter experiência, conhecimento, capacidade de trabalho e de se adaptar às últimas tecnologias de produção de trailers e Motor Homes.
foto de publicidade de 1993
Veja alguns comentários sobre esta matéria:
11/06/2010 - Luis Appel da Silva (Canadá) Eu não tenho nenhum material para adicionar, mas posso dar meu testemunho que tive um trailer da Turiscar enquanto morei no Brasil e nunca tive problema com ele. Muito pelo contrario, só me deu satisfação. Não so o trailer, mas o serviço prestado pela fabrica ali na BR116 em São Leopoldo. Sou gaucho e morava em São Mateus do Sul (pois trabalhava no Paraná) e vinha com minha família sempre passar as ferias no Rio Grande do Sul onde tinha o resto da parentada toda. Cada vez que trocava de carro, passava em Sao Leopoldo para substituir o engate do trailer, pois cada carro tinha um engate diferente. Entregava o antigo, pagava uma diferença e saia com o engate novo já no carro. Em 1993 sai do Brasil e agora moro no Canada onde falo para os amigos daqui, sobre como era o trailer que tinha ai. Infelizmente hoje descobri que a Turiscar nao existe mais. Uma pena que industrias genuinamente brasileiras do meu tempo ai no Brasil, não existem mais. Primeiro a Gurgel e “agora” a Turiscar. Se pudesse, gostaria de dar um abraco ao pioneiro Pedro Scheid pelo que fez na Turiscar e pela qualidade dos produtos que fabricou.
Artigo escrito por Marcos Pivari
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